A Editora Lach?tre est? resgatando uma das obras mais geniais que a literatura esp?rita j? produziu e que, ao longo dos anos, vem passando desapercebida do p?blico.
Monteiro Lobato, o mais importante autor da literatura infantil brasileira, segue uma tradi??o iniciada por nomes de peso da literatura mundial. S?o famosas as reuni?es medi?nicas de Victor Hugo, no ex?lio em Jersey, com a m?dium mme. de Girardin: o que poderia parecer um texto simples – as atas dessas reuni?es – ganhou dimens?o liter?ria ao ser escrito por um dos maiores nomes da literatura francesa de todos os tempos.
O mesmo fen?meno se deu em l?ngua alem?, quando Thomas Mann, por muitos considerado o mais talentoso escritor do s?culo XX, resolveu narrar, numa cr?nica, uma das c?lebres reuni?es organizadas por Schrenck-Notzing, em Munique, com o m?dium Willy Schneider.
Com essas atas de Lobato, a literatura esp?rita brasileira tamb?m produziu sua obra-prima. Numa noite, pelos idos de 1943, o c?lebre criador do Jeca Tatu, conhecido por sua avers?o ?s id?ias religiosas, resolveu sentar-se, meio a contragosto, ? mesa de uma despretensiosa reuni?o que sua fam?lia vinha fazendo h? algum tempo, por mero divertimento, utilizando-se de um copo com letras recortadas em volta. Sua esposa, Purezinha, era a m?dium. O copo movia-se por conta pr?pria, com um leve toque de apenas dois dedos, sobre a borda, apontando as letras que, reunidas, respondiam exatamente ?s perguntas formuladas. Para Lobato, bastou apenas uma reuni?o, em que, entre outros esp?ritos, comunicou-se o Adalgiso Pereira, culto gram?tico e revisor de suas obras, para, com suas exatas e naturais respostas, destruir todas as d?vidas de Lobato com rela??o ? sobreviv?ncia e comunicabilidade dos esp?ritos. Ningu?m entre os presentes estava em condi??es de responder ?quelas perguntas.
As reuni?es prosseguiram. Lobato era o mais entusiasmado. Era o secret?rio. De l?pis em punho, anotava as letras que o copo ia marcando e fazia aos esp?ritos as perguntas, que, muitas vezes, nem precisavam ser pronunciadas. Bastava formul?-las em pensamento para que a resposta se desse de maneira precisa. O conhecido senso de humor e a ironia fina do criador das Reina??es de Narizinho produziram momentos not?veis. Os esp?ritos respondiam na mesma moeda. Ironia daqui, ironia de l?. Em ingl?s, um esp?rito, irritado pela demora de Lobato em anotar as letras que o copo ia indicando, escreveu: – You are very solw for a writer. (Voc? ? muito lento para um escritor.)
Em outro momento, curioso com o fato de a maioria dos esp?ritos que se comunicavam serem de homens, Lobato pergunta a um dos raros esp?ritos femininos da aus?ncia de esp?ritos de mulheres naquela reuni?o. A resposta, tamb?m em ingl?s, ? pura ironia: – May be they have many things to do. (Talvez elas tenham coisa melhor a fazer.)
At? um personagem de seu mundo infantil aparece para dar seu testemunho. ? tia Nast?cia, na verdade uma empregada que trabalhara cuidando de seus filhos a partir de quem Lobato se inspirou para criar um dos personagens mais famosos do imagin?rio de nossas crian?as. J? no outro mundo, a preta vem dar not?cias dos filhos de Lobato que tamb?m j? haviam passado desta para melhor.
Mas a reuni?o tem momentos emocionantes, como quando, por exemplo, um esp?rito que vinha durante v?rios dias atrapalhando os trabalhos, ? tocado pelo sincero interesse de Lobato em ajud?-lo. Ao descobrir que havia sido decapitado, em uma encarna??o anterior, o autor de Urup?s o sensibiliza lembrando-lhe de suas pr?prias dores: – Eu tamb?m tenho sofrido tais injusti?as neste meu viver terreno. E quero tornar-me seu amigo. Quero que apare?a sempre e nos conte a sua vida e sinta que, se h? criaturas humanas que s?o verdadeiros monstros, como os que o justi?aram, outras h? cheias de bondade e amor.
O esp?rito torna-se seu amigo espiritual, passa a ser presen?a constante na sess?o, a auxiliar os trabalhos e mesmo a buscar, no mundo espiritual, esp?ritos que Lobato havia conhecido em vida para com ele dialogar.
A obra, cheia de ensinamentos e com um texto agradabil?ssimo, demonstra todo o g?nio de Lobato, que consegue, com um simples copo e uma m?dium de poucos recursos, momentos de profunda reflex?o acerca do mundo em que vivemos e da realidade maior que ainda teimamos em ignorar.