Artigos escritos por um dos mais importantes autores esp?ritas da atualidade
Herm?nio C. Miranda
O Mist?rio de Edwin Drood
Herm?nio C. Miranda
O Mist?rio de Edwin Drood n?o ? um livro como outro qualquer. E nem poderia s?-lo. Em primeiro lugar, porque foi escrito por Charles Dickens (1812-1870), “o mais popular e talvez o maior romancista ingl?s”, no autorizado dizer de G. K. Chesterton (1874-1936), no longo verbete que escreveu para a Encyclopaedia Britannica. Em segundo lugar, porque O Mist?rio de Edwin Drood, imaginado para criar e resolver o suspense do desaparecimento do her?i que empresta seu nome ? hist?ria, acabou gerando o suspense maior sobre como o autor pretendia concluir sua narrativa, dado que Dickens morreu subitamente, deixando o livro inacabado. E, finalmente, em terceiro lugar, porque cerca de metade da hist?ria foi escrita por Dickens ‘vivo’ e a outra por Dickens ‘morto’.
Os tr?s primeiros fasc?culos de O Mist?rio de Edwin Drood vinham sendo publicados mensalmente desde abril de 1870. Na quarta-feira, 8 de junho, depois de trabalhar o dia todo, o escritor sentiu-se mal durante o jantar e morreu no dia seguinte. Completara apenas seis fasc?culos, dos doze que planejara, deixando milhares de leitores frustrados – da rainha Victoria at? o seu mais remoto e alfabetizado s?dito. Afinal de contas, um livro de Charles Dickens constitu?a importante evento, que transcendia aspectos meramente liter?rios. Muitas eram as perguntas para as quais somente o autor tinha respostas.
Acresce que h? mais de quatro anos Dickens nada escrevia. J? se especulava at? se ele teria, ainda, condi??es de imaginar uma boa hist?ria e lev?-la a termo.
“? pelo menos poss?vel – escreve Steven Connor – que Dickens tenha pressentido a imin?ncia de sua pr?pria morte; por algum tempo vinha ele sofrendo as seq?elas de pelo menos um ataque card?aco, que lhe causavam dor ao caminhar e dist?rbios visuais assim?tricos, e que poderiam t?-lo levado a crer na possibilidade de incapacidade f?sica ou morte.”
Mas, como se l? na introdu??o de Angus Wilson para a Penguin, “...O mist?rio de Edwin Drood n?o foi considerado livro de um moribundo, mas not?vel testemunho da persistente vitalidade de Dickens e evid?ncia de que ele estava em condi??es de divertir toda uma gera??o de novos leitores como havia divertido seus pais.”
Wilson deveria ter em mente, ao escrever isso, a irreverente declara??o de George Bernard Shaw, de que, ?quela altura da vida, Dickens era um homem “tr?s quartos morto.”
Isso n?o quer dizer que o novo livro n?o tenha tido seus cr?ticos, muitos de seus livros anteriores haviam passado por isso, no dizer de Wilson. “Mas – prossegue ele – a receptividade de O Mist?rio de Edwin Drood, ao ser lan?ado, foi muito mais cordial, muito mais convincente da sua vitalidade art?stica do que quando da publica??o de Our Mutual Friend, em 1865, quatro anos e meio antes, ou, na verdade, de Little Dorrit, entre 1855 e 1857, ou, certamente, de Martin Chuzzlewit, em 1843-4.”
Em suma, Dickens estava em plena forma intelectual, a despeito da sub-avalia??o de Wilkie Collins e das ironias do sempre c?ustico George Bernard Shaw.
Isso, contudo, n?o respondia ?s perguntas que se repetiam na mente de milhares de leitores. Duas delas destacavam-se como fundamentais na ansiedade dos admiradores do novelista: Edwin Drood teria sido morto ou continuava vivo? Quem seria aquele enigm?tico Mr. Datchery que surge inesperadamente em Cloisterham, logo ap?s o desaparecimento do jovem Drood?
? certo que Dickens fizera com alguns amigos e parentes vagos e raros coment?rios, e deixara at? algumas notas, e um texto, o discutido “Sapsea fragment”. Nada disso, contudo, tinha a menor contribui??o a oferecer ? tarefa de decifrar os enigmas em suspenso. De modo geral, os escritores n?o gostam de falar daquilo que est?o produzindo ou que planejam escrever. Dickens era um deles, ainda mais que aquela era sua primeira (e ?ltima) novela policial.
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Como vimos, Charles Dickens morreu em 9 de junho de 1870, aos cinq?enta e oito anos de idade. Cerca de dois anos e meio depois, entre o natal de 1872 e julho de 1873, um mec?nico americano de escassa forma??o cultural escreveu em Brattleboro, Vermont, Estados Unidos, a conclus?o da novela inacabada. Segundo ele, o esp?rito de Dickens era o autor do texto.
“A parte p?stuma era mais longa do que a outra – escreve Nandor Fodor – e apresentava surpreendente continuidade na maneira de pensar, no estilo e nas peculiaridades ortogr?ficas de Dickens.” Os espiritualistas em geral aclamaram a conclus?o da novela como “a mais convincente prova da sobreviv?ncia do esp?rito.”
Mas os negadores de plant?o estavam atentos.
Theodore Flournoy foi um deles. Em Espiritismo e psicologia (os dados bibliogr?ficos n?o constam do texto de Fodor) “disp?s-se a demonstrar que Dickens nada tinha a ver com o caso e que tudo poderia ser explicado pelo processo da latente incuba??o e pela imagina??o do pr?prio m?dium.” (Destaque meu)
Em apoio ? sua tese, citava estudo da sra. K. Fairbanks, da Universidade de Genebra, intitulado Le cas spirite de Dickens, segundo o qual havia, “certamente, passagens muito bem sucedidas, como as cenas entre as duas mulheres, Billickin e Twinkleton. Mas h? outras que s?o justamente o contr?rio.”
Flournoy lembra, ainda, que John Forster, amigo e bi?grafo de Dickens, encontrou entre os pap?is do escritor morto “uma cena completa de Edwin Drood”, que n?o teria sido aproveitada. E considera incr?vel que o autor, “que se lembrava t?o claramente da parte do livro j? publicada, (...) houvesse esquecido completamente o cap?tulo escrito que permanecera no original in?dito.”
A hist?ria n?o ? bem assim, ou melhor, n?o ? nada disso. Flournoy refere-se ao chamado “Sapsea fragment”, um texto de apenas cinco laudas manuscritas, numeradas pelo pr?prio Dickens, de 6 a 10. O que parece indicar que as cinco primeiras laudas foram perdidas ou destru?das pelo escritor. Nada tem, portanto, de uma cena completa do livro inacabado e, muito menos, de um cap?tulo. Al?m disso, a narrativa termina abruptamente, “no meio de uma senten?a – escreve Arthur J. Cox – na p?gina 10, com as palavras ‘Or if I was to deny’.” (“Ou, se eu fosse negar...”)
Em suma, ao contr?rio do que proclama o prof. Flournoy, o suposto cap?tulo n?o passa de uma “passagem duplamente deficiente – no dizer de Steven Connor –, n?o sendo mais do que o fragmento de um fragmento.”
Ao que sup?e John Forster, Dickens adiantara o enredo mais do que devia e resolveu escrever algo de interesse meramente incidental, demorando-se um pouco na pomposa e rid?cula figura de Mr. Sapsea.
Nem essa hip?tese, contudo, ? suficientemente robusta para manter-se de p?. Connor acha at? “mais persuasiva a sugest?o” de Charles Forsyte, em artigo “The Sapsea Fragment: Fragment of What?” (“O fragmento Sapsea: fragmento de qu??”), publicado no The Dickensian 82, 1986, p.12-26 – segundo o qual o texto ? “t?o estilisticamente an?malo, tanto em rela??o ?s personagens quanto ao contexto em que se passa, que seria muito dif?cil incorpor?-lo adequadamente a qualquer ponto da continua??o de O Mist?rio de Edwin Drood...” Na realidade, Forsyte acha que o discutido fragmento teria sido uma “pe?a aut?noma, escrita antes de Edwin Drood, e, na sua origem, n?o tinha qualquer liga??o com a hist?ria.”
A despeito disso tudo, Flournoy insiste em dizer que Dickens (esp?rito) teria produzido “convincente prova de sua identidade se tivesse feito qualquer alus?o” ao fragmento.
Por outro lado, como o m?dium n?o negou que tivesse lido o ?ltimo livro de Dickens, Flournoy aproveita-se para mais uma das suas obje??es, ao escrever, segundo se l? em Nandor Fodor, o seguinte: “Torna-se agora evidente – ataca Flournoy – que, se ele n?o houvesse lido Dickens, teria provavelmente se gabado de sua proeza, dado que isso tornaria seu desempenho muito mais extraordin?rio.”
Destaco o texto para evidenciar a contradi??o em que cai o ilustrado professor su??o, que acaba reconhecendo explicitamente que a proeza do m?dium foi, afinal de contas, extraordin?ria, e que mais seria se n?o houvesse lido a obra inacabada de Dickens.
Pouco adiante, ainda segundo Fodor, Flournoy confirma obliquamente o impacto que lhe causou a proeza medi?nica de James, ao lembrar que o jovem mec?nico dispusera de dois anos e meio – fora os seis meses que consumiu em escrever o final da est?ria inacabada de Dickens –, para impregnar-se da obra original e deix?-la apurar-se. “Devemos confessar – arremata Flournoy – que isto reduz consideravelmente o car?ter maravilhoso da hist?ria.” Ou seja, o texto medi?nico tinha, para ele, Flournoy, “car?ter maravilhoso”, mesmo com as restri??es que lhe atribui.
A acrobacia mental de Flournoy, no entanto, n?o me causa qualquer surpresa. Ele se empenhara em esfor?o semelhante – totalmente in?til, a meu ver – para demolir a not?vel mediunidade da Sra. Smith, no livro Des Indes ? la plan?te Mars. Sem desejar explicar de outro modo, sen?o admitindo nela faculdades paranormais, o conhecimento que demonstrava do s?nscrito, ele afirma que ela o aprendeu ao folhear uma gram?tica existente numa biblioteca su??a!
Ao contestar a origem medi?nica do texto psicografado por James, o ilustrado professor recai na mesma atitude de comovente infantilidade de que bastou a James, um pobre mec?nico de instru??o prim?ria, ler o livro inacabado de Dickens para se tornar capaz de concluir de modo inteiramente satisfat?rio o complexo enredo da novela inacabada.
O mais estranho, por?m, ? que o m?dium Thomas James n?o leu a primeira parte do livro de Dickens! Veremos isso ainda mais a frente.
O professor n?o explica, ademais, como ? que o inculto mec?nico americano conhecia, nas suas min?cias, a topografia de Londres, onde jamais estivera. Como, tamb?m, os cacoetes liter?rios de Dickens e a maneira peculiar do famoso romancista em expressar-se no ingl?s da Inglaterra e n?o no americano.
Mas n?o foram somente Flournoy e a sra. Fairbanks que negaram credibilidade ao texto medi?nico. Sir Arthur Conan Doyle, espiritualista convicto e praticante, tamb?m expressou certas d?vidas que, longe de esclarecer o assunto, ainda mais obscuro o deixaram. ? o que se l? no seu livro The Edge of the Unknown (Fronteiras do Desconhecido), no qual reuniu quinze estudos sobre temas de natureza espiritual. O que nos interessa aqui ? o de n?mero VI – Alleged posthumous writings of known authors, ou seja, “Supostos escritos p?stumos de autores conhecidos”. Considero insuficiente o espa?o que o eminente escritor dedicou ao assunto, ao compactar em apenas vinte e duas p?ginas, formato pequeno, tipo largo, seis importantes escritores da l?ngua inglesa: Oscar Wilde, Jack London, Lord Northcliffe, Charles Dickens, Joseph Conrad e uma entidade que se identificou apenas como “Jerome”, que teria sido amigo pessoal do famoso criador de Sherlock Holmes.
Quanto ao m?dulo sobre Dickens, a hist?ria ? a seguinte. As coisas se passaram numa sess?o medi?nica realizada em sua resid?ncia, com a presen?a de sua esposa, Lady Doyle, e mais Florizel von Reuter, destacada violinista da ?poca e a m?e desta, tamb?m dotada de faculdades medi?nicas. O m?todo de comunica??o era o do ponteiro, que ia indicando as letras com as quais as entidades manifestantes compunham suas respostas e observa??es.
O debate sobre o romance inacabado de Dickens continuava em pleno vigor na ?poca. Conan Doyle declara que ele pr?prio andava pensando bastante em Dickens e Drood; ao contr?rio de suas visitantes para as quais o assunto nada significava. A m?e de Florizel havia lido o livro inacabado h? alguns anos, mas n?o era muito o que dele se lembrava.
De repente, o ponteiro “come?ou a disparar furiosamente” de um lado para outro, enquanto Florizel anotava as letras que formavam as frases. A primeira delas anunciava a presen?a de Boz, pseud?nimo de Dickens. Doyle perguntou, para confirmar, se era mesmo Charles Dickens o manifestante e o ponteiro confirmou prontamente. Ap?s trocadas breves palavras formais, Doyle perguntou-lhe se ele estava disposto a responder a algumas perguntas.
“Espero que eu saiba o suficiente.” – foi a resposta.
Doyle queria saber se foi mesmo “aquele americano” quem conclu?ra, sob inspira??o, O Mist?rio de Edwin Drood. Dickens respondeu “instantaneamente e de modo decidido”: “N?o por mim.” E prosseguiu declarando de modo ainda mais enigm?tico e amb?guo que “Wilkie C. fez (ou teria feito) melhor” A express?o entre par?nteses ? de Doyle e contribui para tornar a resposta ainda mais obscura. O que o manifestante pretendeu dizer com aquela express?o “N?o por mim.”? Que n?o fora o inspirador do livro e sim seu pr?prio autor, ainda que utilizando-se da intermedia??o do sensitivo? E que teria Wilkie C. a ver com aquilo? Afinal, Wilkie fez o qu? melhor? Ou teria feito o qu??
Doyle informa que, depois da morte de Dickens, circulou a not?cia de que Wilkie Collins iria concluir o livro inacabado, mas tanto quanto ele, Doyle, sabia, nada disso aconteceu. Seja como for, as duas von Reuters desconheciam tais detalhes.
Doyle formula, a seguir, a pergunta mais “quente” do caso, ou seja, se Edwin Drood fora morto ou n?o. O ponteiro responde que n?o. Essa era, ali?s, a opini?o do pr?prio Doyle e ele chama para esse aspecto a aten??o da m?dium, que caracteriza como “telepatista” Deixa sugerido, portanto, que ela poderia ter captado a resposta na mente dele, Doyle, n?o havendo, pois, necessidade de atribu?-la ao esp?rito manifestante.
H? uma pausa, e a mensagem continua, referindo-se a Edwin Drood.
“Lamento ter morrido antes de tir?-lo das suas dificuldades. O pobre sujeito passou maus peda?os. N?o sei o que teria sido melhor – resolver o caso nas suas anota??es pessoais ou deix?-lo permanecer um mist?rio para sempre. Se voc? fizer um bom trabalho com Conrad, poderei confiar-lhe Edwin.”
Doyle respondeu que seria uma honra para ele. Mas o assunto continua mergulhado em total indefini??o, como se Sir Arthur e o manifestante estivessem falando de coisas inteiramente diversas. Se Dickens-esp?rito j? havia escrito o restante do livro com a ajuda de James, por que estaria propondo a Doyle que o escrevesse? Ou Wilkie Collins? Ou, ent?o, a entidade manifestante seria algum mistificador divertindo-se com Conan Doyle e n?o Charles Dickens desencarnado.
Trocaram, ainda, algumas gentilezas e Doyle voltou ao questionamento, para saber se Dickens se lembrava do enredo. Ing?nua pergunta para dizer o m?nimo. N?o posso entender como ? que uma pessoa t?o brilhante e, supostamente experimentada no interc?mbio com os esp?ritos, como Doyle, a tenha formulado. Dickens, respondeu que sim. Como n?o haveria de ter conhecimento do que escrevera, ainda vivo, h? poucos anos?
Sir Arthur despacha, a seguir, a segunda pergunta que ocupava a mente dos leitores de Dickens: “Quem era Datchery?” E novamente, a resposta ? cr?ptica.
“Que tal a quarta dimens?o? Prefiro escrever tudo por seu interm?dio.” Ou seja, por interm?dio de Conan Doyle. Sabe-se que Lady Doyle era dotada de faculdades medi?nicas e as exerceu convincentemente. N?o me consta, por?m, que Sir Arthur tenha sido dotado de faculdades suficientemente desenvolvidas para psicografar o livro de Dickens. Estaria o criador de Edwin Drood pensando em inspirar seu colega escritor ainda encarnado, a concluir por ele O Mist?rio de Edwin Drood? Como escritor, certamente, Doyle estaria consideravelmente acima do m?dium americano Thomas P. James, mas e como m?dium?
Por outro lado, se Doyle oferecesse condi??es para concluir o livro, Dickens-esp?rito n?o teria recorrido ao jovem m?dium americano. Ou, ent?o – deixem-me reiterar – a entidade espiritual manifestante na sess?o dirigida por Sir Arthur nada tinha a ver com Dickens, tais os disparates que diz.
Ademais, como confessa Doyle, “N?o posso imaginar o que teria a quarta dimens?o com isso?” Na sua opini?o, a express?o foi proposta pelo manifestante, como mera brincadeira, dado que “a quarta dimens?o ? algo de que ningu?m entende.”
A entidade que se identifica como Dickens, no entanto, prossegue dizendo que “Edwin est? vivo e Chris o mant?m escondido.”
Outra incongru?ncia.
Trata-se, naturalmente, de Mr. Crisparkle, o simp?tico c?nego menor. Doyle destaca a import?ncia da informa??o, de vez que “alguns dos melhores c?rebros do mundo se t?m ocupado em apurar se Drood estava morto ou vivo, e n?o onde estaria ele.” ? verdade que na vers?o medi?nica de James, Drood escapou da tentativa de assassinato, mas n?o foi escondido pelo reverendo Crisparkle. Doyle releu a novela inacabada e verificou que at? certo ponto Crisparkle realmente nada sabia sobre o paradeiro de Drood. “Mas que, a partir de determinado ponto da hist?ria, n?o h? raz?o pela qual Crisparkle n?o tenha descoberto o segredo de Drood e o tenha ajudado.” N?o ? bem isso que acontece no texto medi?nico. Quem resgatou Edwin Drood da morte certa e colaborou para mant?-lo escondido foi Durdles, o pedreiro. Mr. Crisparkle tinha l? suas suspeitas e suas d?vidas, pois desconfiava de Jasper, mas n?o tinha ponto de vista firmado sobre o que acontecera com Edwin Drood e, certamente n?o o escondera.
Quanto a essa enigm?tica troca de palavras, n?o sei a que conclus?o chegar? voc?, leitor/leitora. A minha ? a de que o manifestante manteve-se nos limites da ambig?idade, mostrava-se inseguro e contradit?rio no que dizia e parecia ignorar aspectos de vital import?ncia ao esclarecimento do caso e at? mesmo o texto psicografado pelo jovem m?dium americano.
Em suma, a sess?o medi?nica em casa de Sir Arthur foi confusa, inconclusiva e incoerente. Uma verdadeira decep??o, enfim. N?o me vejo convencido de que a entidade manifestante tenha sido realmente Dickens-esp?rito.
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Dispomos, contudo, de outras fontes para recorrer, na tentativa de participar do grande debate.
Como era de esperar-se, o assunto interessou sobremaneira a escritores e pesquisadores dedicados ao estudo da realidade espiritual. Tr?s deles s?o de reconhecida capacidade intelectual e dignos do maior respeito: Gabriel Delanne, Alexandre Aksakof e Ernesto Bozzano. Para n?o alongar demais este cap?tulo, ficaremos apenas com Ernesto Bozzano. O pesquisador italiano estuda nesse trabalho os casos de Carlo Goldoni, William Sharp/Fiona Macleod, Harriet Beecher-Stowe, Patience Worth e Geraldine Cummins, al?m de Oscar Wilde e Charles Dickens, tamb?m examinados, como vimos, por Sir Arthur Conan Doyle.
Bozzano declara, logo de in?cio, que o caso Dickens “parece incontestavelmente aut?ntico”. Lembra a celeuma que o texto medi?nico suscitou, como temos visto, menciona em poucas palavras a pol?mica paralela criada pelo debatido Fragmento Sapsea, que discutimos h? pouco e cita uma senhora Vessel, que, ao ler o Dickens medi?nico, achou-o “mon?tono e pesado.” Acrescenta, por?m, que...
(...) os que sustentam a proveni?ncia autenticamente espiritual do ditado medi?nico n?o deixam de ter bons argumentos para fazerem valer. Eles fazem notar – prossegue – que a narra??o ? retomada no ponto exato em que Dickens a interrompera ao morrer. (p. 22).
Bozzano demonstra acatar essa postura ao declarar que a liga??o do texto inacabado com o medi?nico se “d? com tal naturalidade que a cr?tica mais sagaz n?o seria capaz de assinalar o ponto em quest?o.”
Declara, a seguir, haver encontrado em artigo de Conan Doyle observa??es desse tipo, como por exemplo, o singular h?bito de Dickens na intitula??o dos cap?tulos. Num desafio ? critica liter?ria da ?poca, Sir Arthur – ainda segundo Bozzano – selecionou passagens do texto escrito por Dickens em vida, e os colocou ao lado dos escritos medi?nicos, para que os cr?ticos identificassem as origens de uns e outros. Tarefa, ali?s, que ele n?o considera nada f?cil, dado que estilo e forma s?o id?nticos, “assim como a beleza liter?ria, sinal do mesmo temperamento art?stico.”
? verdadeiro isso. Destaco, nesta tradu??o, pelo menos uma de tais passagens – s?o muitas –, na qual a beleza do texto psicografado coloca-se muito acima da limitada capacidade liter?ria do jovem m?dium. Voc? poder? conferir tais aspectos, confrontando o que escreveu Dickens mediunicamente, em qualquer ponto da hist?ria, com a pobreza estil?stica do pref?cio de autoria do m?dium.
Mesmo aqui, portanto, a posi??o de Sir Arthur ? d?bia, ao declarar algo parecido com a opini?o da senhora Vessel, dizendo que o texto medi?nico era o de “a Dickens gone flat”, ou seja, um Dickens chato, sem sabor.
Trata-se de mais uma observa??o question?vel de Sir Arthur. Escritor famoso, autor de numerosas obras de fic??o e de pesquisa, m?dico e, al?m disso, espiritualista convicto – escreveu at? uma Hist?ria do Espiritualismo –, habituado ao trato com numerosos m?diuns, o brilhante criador de Sherlock Holmes deveria estar mais bem informado da dificuldade em se fazer passar, atrav?s de um m?dium intelectualmente despreparado como Thomas James, um texto t?o sofisticado.
Frederic W. F. Myers, numa de suas numerosas comunica??es p?stumas, declarou ser muito mais dif?cil do que se pensa transmitir um texto medi?nico, por melhores que sejam os sensitivos. ? o mesmo – figurou Myers-esp?rito – que ditar uma comunica??o atrav?s de um vidro fosco, a uma pessoa meio surda e n?o muito inteligente. Myers sabia do que estava falando; deixou obras importantes, entre as quais um cl?ssico da literatura ps?quica – A sobreviv?ncia do ser ? morte corporal.
Dessa mesma dificuldade se queixam entidades que se manifestavam pelo excelente m?dium portugu?s Fernando de Lacerda. Como tamb?m, o pr?prio Dickens, no pref?cio escrito para o livro conclu?do por James. Mediunidades, digamos, mais transparentes como a de Chico Xavier, para citar um bom exemplo, s?o raras.
O texto medi?nico de O Mist?rio de Edwin Drood deve ser examinado sob essa luz. O que se tem a admirar nele ? o fato extraordin?rio de ter sido t?o bom quanto ? e n?o porque apresente, porventura, uma ou outra imperfei??o que os patrulheiros do materialismo catam, ampliam e exageram, a fim de continuarem a crer nas suas descren?as pessoais. O admir?vel na psicografia do Mist?rio, insisto, ? que autor desencarnado e m?dium tenham conseguido, a despeito das reconhecidas dificuldades impostas pelo processo, chegar a uma admir?vel sintonia, a fim de escreverem o esperado final da hist?ria.
Que Dickens-esp?rito tenha alterado o enredo da hist?ria que vinha contando, n?o constitui argumento suficiente para invalidar sua autoria espiritual. Era mesmo de esperar-se que o fizesse, dado que sua vis?o teria necessariamente que mudar substancialmente ante a realidade que o aguardava do outro lado da vida. Acontece que ? sempre mais c?modo para muitos atribuir um texto desses ao m?dium do que admitir a realidade espiritual subjacente, que obriga a radicais altera??es na estrutura cultural a que estamos habituados em nosso desatento interc?mbio com a vida. Mesmo sem a dram?tica mudan?a suscitada pela morte corporal, autores encarnados tamb?m o fazem. N?o posso dar testemunho de ficcionista – que n?o o sou – mas ? comum acontecer que livros meus saiam diferentes daquilo que eu havia planejado. Parece at? que assumem identidade pr?pria e autonomia suficiente para levar a disserta??o por rumos que eu n?o previra e que at? me surpreendem. Nem sempre – diria mesmo que quase nunca – o livro sai exatamente como foi planejado.
Sir Arthur parece consciente desse aspecto, ao mencionar modifica??es que Dickens teria introduzido, como escritor ‘morto’, no comportamento de determinadas personagens. E acrescenta, segundo Bozzano: “Parece-me, entretanto, que n?o se deveria insistir muito sobre este ponto, sem pretender que um Dickens, entorpecido por sua uni?o com o m?dium James, deva ficar mentalmente t?o ?gil como um Dickens, senhor absoluto de si pr?prio. ? preciso, logicamente, admitir qualquer coisa a este respeito.”
Concordo basicamente com esse parecer. Minhas raz?es seriam, contudo, algo diferentes e mais amplas do que as que oferece Sir Arthur. N?o vejo Dickens “entorpecido” por causa da conex?o medi?nica. Se h? algu?m entorpecido nesse interc?mbio ? o m?dium, n?o o autor. Vejo-o mudando deliberadamente o enredo, em vista de reflex?es posteriores ? sua morte. Claro que n?o tenho como comprovar tal suposi??o, mas ? o nos sugerem a l?gica e o bom senso.
Vejamos um exemplo. No texto inacabado, percebe-se claramente que o autor pretendia fazer Rosa Bud casar-se com o elegante ex-marinheiro Tartar, bem como Edwin Drood com Helena Landless. No texto medi?nico, contudo, Rosa casa-se mesmo com Drood, e Helena com o reverendo Crisparkle. Com o que Tartar ficou um tanto perdido na hist?ria.
Dickens-esp?rito deve ter tido boas raz?es para mudar o que havia, presumivelmente, planejado. De id?ntico recurso valeu-se ele, enquanto vivo. Usualmente o leitor n?o fica sabendo dos incidentes de percurso do sofrido processo da cria??o; neste caso ficamos, porque Dickens deixou anota??es que Arthur Cox apresenta no Ap?ndice A da edi??o que preparou para o Mist?rio, em sua edi??o da Penguin. (p. 283-295).
? uma esp?cie de “di?rio de bordo” da grande viagem que ? a cria??o da hist?ria. Come?a tudo numa “Sexta-feira, 20 de agosto de 1869”, quando se inicia a tarefa m?gica de engendrar o enredo, escolher o nome de cada personagem, decidir a seq??ncia dos epis?dios e coisas desse g?nero.
O autor ainda hesitava em como chamar suas criaturas. Gilbert, Alfred, Edwin, Edwyn ou Oswald? Jasper ou Michael, Arthur, Selwyn ou Edgar? E o trovejante profissional da filantropia (ou pilantropia?) seria Mr. Honeythunder ou Honeyblast? Optaria pelo primeiro. Certa personagem por nome James iria desaparecer. Estava planejada uma fuga e a conseq?ente persegui??o. Estaria esbo?ado a? o epis?dio da escapada estrat?gica de Neville Landless? Ou pensava ele na fuga do pr?prio Edwin? Por outro lado, algu?m (Quem?) assumiria o papel do vingador e faria disso o objetivo de sua vida. As notas falam, tamb?m, da devo??o de um parente. (John Jasper por Drood? Ou vice-versa?) Na realidade seriam dois parentes. Talvez j? estivesse decidido quanto ao parentesco de Datchery com a jovem que Jasper infelicitou. Do que se percebe que, mesmo pronto o roteiro b?sico, havia importantes aspectos a definir.
Mas as coisas ainda estavam um tanto nebulosas, ou, no m?nimo, ainda muito no futuro, como se depreende das seguintes anota??es, que indicam a procura de um t?tulo para o livro: O sumi?o de Edwyn Brood, O sumi?o de Edwin Brude, O Mist?rio na Fam?lia Drood, O sumi?o de Edwyn Drood, A fuga de Edwyn Drood. E mais abaixo, a pergunta que o autor deixou sem resposta: Dead? Or alive? (Morto ou vivo?)
Como ele anota um t?tulo que menciona a fuga de Drood, parece leg?timo concluir-se que uma das alternativas era a de faz?-lo escapar da tentativa de assassinato.
Em seguida, a est?ria come?a a definir-se melhor. Algu?m ser? um fumador de ?pio. O vers?culo de Ezequiel ter? lugar de destaque. Miss Twinkleton ser? afetada pela s?ndrome da dupla personalidade, tem?tica discutida na ?poca e que, n?o se sabe por que raz?es, Dickens n?o desenvolveu como poderia t?-lo feito. Mr. Sapsea j? est? previsto como o “velho Tory burro” e escrever? um epit?fio para a falecida esposa.
? medida em que o trabalho de escrever propriamente dito se desenvolve, Dickens anota o sum?rio de cada cap?tulo produzido. Nas anota??es que precedem o Cap?tulo XIII – Both at their best (Ambos na melhor forma), o autor ainda parece hesitar sobre o que fazer com Edwin e Rosa. Escrever mais um cap?tulo sobre eles, ou ser? aquele o ?ltimo encontro deles? Decide por esta op??o, escreve Last time (?ltima vez) e sublinha as palavras com dois tra?os. (N?o seria, afinal, a ?ltima vez, dado que, no texto psicografado, os dois se reencontram).
Excelente cap?tulo, ali?s. Pela primeira vez, Edwin percebe a inesperada maturidade e bom senso de Rosa, que ele tinha na conta de uma menina f?til, da qual ele faria uma boa e dedicada esposa.
E aqui chegamos de volta ao ponto que discut?amos h? pouco. Embora sua inten??o, ainda ‘em vida’ fosse a de casar Rosa com Tartar, e Edwin com Helena, Dickens-esp?rito decide – acertadamente, a meu ver – cas?-la com Edwin mesmo. Seria porque j? estavam destinados a essa uni?o desde a inf?ncia, ou porque Edwin descobrira a tempo a verdadeira Rosa debaixo da t?nue camada da aparente frivolidade? Se precisasse de alguma justificativa para redirecionar o enredo de volta ao casamento de Edwin e Rosa, Dickens a teria no cap?tulo XI – A picture and a ring –, no qual, entre outras cenas antol?gicas, o desajeitado Mr. Grewgious (Quem diria?) faz veemente prele??o sobre como deve comportar-se perante sua amada, aquele que ama. ? certo que a competente e emocionada disserta??o mergulhou fundo no cora??o e na mente de Edwin, e n?o seria surpresa levar os dois, afinal, ao altar, como de fato o fez. Ou, ent?o, o suposto ?ltimo encontro entre os dois teria sido apenas um artif?cio do ficcionista para despistar o final feliz do casamento.
N?o vejo, pois, como p?r sob suspei??o a identidade do autor espiritual simplesmente porque teria, aqui e ali, mudado o enredo ou o papel deste ou daquele personagem.
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A meu ver, quem melhor estudou o caso Dickens-James na conclus?o de O Mist?rio de Edwin Drood foi Wallace Leal Rodrigues, na erudita introdu??o intitulada “Charles Dickens em face do Espiritismo”, que escreveu para sua tradu??o de Christmas Carol, do famoso escritor ingl?s.
Wallace teve acesso ? reportagem que o jornal Springfield Dailly Union, publicou na ?poca, logo que come?ou a circular a not?cia de que um obscuro mec?nico residente em Bratlleboro conclu?ra a novela de Dickens. A informa??o acrescentava – no dizer de Wallace – “que testemunhas honestas tinham acompanhado o processo da psicografia e que ju?zes competentes tinham-lhe apreciado o valor liter?rio” (p. 27).
? que farejando uma boa mat?ria jornal?stica, a publica??o despachou para Brattleboro um de seus redatores. O texto – informa Wallace – ocupou oito colunas da edi??o de 26 de julho de 1873 e foi, posteriormente, reproduzido pelo Banner of Light e pelo The Spiritualist, peri?dicos esp?ritas.
Sensivelmente impressionado com o fen?meno, o autor da reportagem procura situar-se numa posi??o neutra, mais informativa do que opinativa, mas, ainda assim, sem deixar de opinar. Gaba-se da feliz oportunidade de ter sido “a primeira pessoa a quem o m?dium narrou as circunst?ncias do caso, a primeira que examinou os manuscritos e dele fez extratos.”
O m?dium era natural de Boston, abandonara os estudos aos doze anos de idade e aos quatorze come?ou a trabalhar como aprendiz de mec?nico. “Embora n?o seja destitu?do de intelig?ncia – transcreve Wallace (p. 27) – nem iletrado, n?o manifesta gosto algum pela literatura e nunca se interessou por ela.” O jovem mec?nico n?o se interessava tamb?m pela publicidade – queria que seu nome n?o fosse divulgado.
At? que nele se manifestassem as faculdades medi?nicas, foi daqueles que preferem zombar dos fen?menos ou, quando n?o podem ignor?-los, pregar-lhes o r?tulo c?modo de fraude. Pelo menos ficam desobrigados de pensar. Numa sess?o, para a qual fora convidado por alguns amigos, a mesa (ainda havia as famosas mesas girantes) indicou-o explicitamente como dotado de recursos medi?nicos.
Na sess?o seguinte, James entrou em transe e psicografou uma mensagem, na qual se manifestava o filho morto de uma das pessoas presentes e sobre a qual o m?dium nada sabia. Em fins de outubro de 1872, uma entidade comunicante identificou-se como Charles Dickens, e lhe pediu que programasse uma sess?o especial para o dia 15 de novembro.
Na data combinada – James estava sozinho –, Dickens escreveu uma longa mensagem, manifestando seu desejo de terminar, com a ajuda do m?dium, o livro que deixara inacabado. Explicava que at? ent?o n?o conseguira encontrar um m?dium em condi??es de realizar a delicada tarefa. Pedia, ainda, que a primeira sess?o de trabalho fosse marcada para a v?spera do pr?ximo Natal, data de sua predile??o, conforme ficou documentado em sua obra de ‘vivo’. Al?m de constituir a motiva??o para o cl?ssico Christmas Carol – traduzida por Wallace –, a hist?ria de Edwin Drood come?a com a tentativa de assassinato numa noite de Natal, desvenda-se o crime no Natal seguinte e o criminoso morre no terceiro Natal. Muito adequado, portanto, que no primeiro Natal dispon?vel, dois anos e meio ap?s sua morte, o ‘falecido’ romancista retomasse a pena – ainda que com m?o alheia – para trabalhar na conclus?o da obra.
N?o desejava, contudo, atropelar a vida do jovem mec?nico. Pedia-lhe para dedicar ? tarefa medi?nica todo o tempo de que pudesse dispor, mas sem preju?zo de suas atividades rotineiras do dia-a-dia. Trato feito, trato cumprido. Em cerca de sete meses o livro estava pronto.
Foi esse jornalista uma das primeiras pessoas intelectualmente preparadas para examinar os originais psicografados, destacando nestes a perfeita transi??o do texto escrito ‘em vida’ para o que continuava sob responsabilidade do escritor ‘morto’. Menciona a sustenta??o de todo um grupo de personagens, cada uma delas com suas caracter?sticas pessoais e sua marca??o na hist?ria.
Cada uma das personagens do livro – escreve o jornalista, apud Wallace, p. 29 – continua a ser t?o viva, t?o t?pica, t?o bem caracterizada na segunda parte como na primeira. N?o ? tudo – apresentam-se novas personagens (Dickens tinha o h?bito de introduzir atores novos at? nas ?ltimas cenas de suas obras), – os quais s?o absolutas reprodu??es do her?is da primeira parte; n?o s?o bonecos mas caracteres tomados ao vivo, verdadeiras cria??es. Mas… criadas por quem?
Examinando o texto psicografado, o jornalista notou a grafia brit?nica de certas palavras, em contraste com o modo americano de as escrever, tal como existem hoje diferen?as entre o portugu?s falado e escrito no Brasil e o que se fala e escreve em Portugal. Dickens-esp?rito continuava escrevendo traveller (viajante) com dois ll em vez de um s?, como nos Estados Unidos, e coals (carv?o) com um s final, que o m?dium americano, por si s?, n?o usaria. Al?m do mais, o texto denota um conhecimento da topografia de Londres que o jovem mec?nico americano n?o possu?a, bem como certos cacoetes de Dickens, como o da s?bita mudan?a do tempo dos verbos para o presente, em determinadas cenas.
Confessa, mais adiante, haver chegado a Brattleboro convicto de que aquela “obra p?stuma n?o passaria de uma bolha de sab?o, f?cil de rebentar”. Ap?s consumir dois dias analisando meticulosamente os originais, declara-se indeciso. Talvez desejasse apenas ser cauteloso para n?o assumir explicitamente perante leitores e leitoras de sua reportagem que estaria convencido da autenticidade do texto medi?nico.
Ao contr?rio do que afirmaria mais tarde o professor Theodore Flournoy, o rep?rter informa que o m?dium lhe “disse que nunca tinha lido o primeiro volume”, ou seja, a parte que Dickens escrevera em vida. E at? considera isto “irrelevante… pois estou inteiramente convencido – acrescenta – de que ele n?o seria capaz de escrever uma s? p?gina do segundo volume”. Ressalva que tal declara??o n?o deve ser tomada como ofensiva ao m?dium, de vez que “n?o h? muitas pessoas em condi??es de terminar uma obra inacabada de Charles Dickens!”
Eu at? diria isso de outro modo, de vez que, na minha opini?o, s? h? uma pessoa em condi??es de acabar uma obra de Dickens – o pr?prio.
Se existe em Vermont – conclui o rep?rter – um homem desconhecido at? o presente, capaz de escrever como Dickens, certamente ele n?o tem motivo algum para recorrer a semelhante subterf?gio. Se, por outro lado, ? o pr?prio Dickens quem fala, se bem que tenha morrido, para que surpresas n?o nos devemos preparar!
Est? bem constru?do o pensamento do jornalista. Se n?o ? Dickens quem escreveu aquilo, trata-se de algu?m, pelo menos t?o genial como o falecido romancista brit?nico; e se ? realmente Dickens-morto, ent?o, ? bom a gente abrir na mente espa?o para conceitos surpreendentes como, entre outros, a sobreviv?ncia do ser ? morte corporal. E isso desarruma a cabe?a dos plantonistas habituais a considerar a vida que continua depois da vida mero objeto de cren?a ou descren?a.
Informa, ainda, o precioso texto de Wallace Leal Rodrigues que, ao tratar do caso, ainda em 1873, ano da publica??o da obra completa, um cr?tico de nome Harrison, escreveu o seguinte, no Spiritualist:
? dif?cil admitir que o g?nio e o senso art?stico com que esse texto est? marcado e que tem tanta semelhan?a com o g?nio e o senso art?stico de Charles Dickens, tenham induzido o seu autor, quem quer que seja, a s? apresentar ao mundo como um h?bil falsificador.
Wallace informa a seguir que…
A ascens?o de James foi mete?rica. Mas a sua queda para a obscuridade foi igualmente r?pida. Dentro de poucos anos, estava completamente esquecido. James, depois disso – conclui Wallace – n?o foi capaz de escrever uma ?nica linha.
N?o se confirma, portanto, a declara??o do m?dium, no seu pref?cio, de que estaria recebendo mediunicamente mais um livro de Dickens. Ou os originais se perderam, ou o autor espiritual desistiu da tarefa, talvez por haver entendido que, com a conclus?o da hist?ria de Edwin Drood, j? dera o seu recado p?stumo.
Wallace at? acha que a demorada procura de um m?dium em condi??es de psicografar o restante do Mist?rio… tenha sido uma sutil maneira de mostrar a Dickens-esp?rito como ? que se passam as coisas na dimens?o p?stuma, dado que, em vida, ele n?o dera a m?nima import?ncia para a fenomenologia medi?nica. E olhe que foi uma ?poca pr?diga em manifesta??es desse tipo, por toda a Europa e nos Estados Unidos. At? a rainha Victoria, que ele visitou em 1870, para falar precisamente de Edwin Drood, conversava com os esp?ritos, especialmente, o de seu saudoso marido, o pr?ncipe Albert, gra?as ? mediunidade de John Brown.
N?o se sabe – escreve Wallace, p. 24 – se por ter ouvido falar ou por ter sido um observador pouco paciente e feliz, ele (Dickens) preferiu rejeitar e ridicularizar as mais importantes ocorr?ncias de seu tempo, e que por ele, foi levianamente descrita como … ‘ the banging of doors, ringing of bells, and such like insignificances…’, isto ?, batidas de portas, retinir de sinos e outras insignific?ncias como essas.
Na sua opini?o, eram simplesmente desprez?veis os textos psicografados que teve oportunidade de ler. Wallace sup?e at? que Dickens tenha feito “desesperados esfor?os” a fim de encontrar um bom m?dium com o qual pudesse reverter seu testemunho de rejei??o ? realidade espiritual enquanto viveu na terra. Gra?as a isso, conseguiu produzir – ainda no dizer de Wallace – “um dos grandes monumentos na hist?ria da mediunidade psicogr?fica”.
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Como a quest?o religiosa participa, de certa forma, da tem?tica central de O mist?rio de Edwin Drood, a gente se pergunta: Qual teria sido a postura de Dickens vivo perante a religi?o?
Sem mais aprofundadas pesquisas, encontramos mat?ria suficiente a respeito disso, no texto que Michael Patrick Hearn escreveu para a caprichada edi??o especial em fac-simile de Christmas Carol, da Avon Books.
Para Hearn (p. 44), n?o h? como deixar de reconhecer o caracter irreligioso de Christmas Carol. E traz para sua apresenta??o, os coment?rios de Ruskin, segundo o qual o Natal de Dickens “significava apenas visco e pudim e nada de ressurrei??o dos mortos, nem do surgimento de novas estrelas, ou ensinamentos dos s?bios, e nem de pastores.” Natal para ele, no dizer de Lang (apud Hearn), era um “cristianismo iluminado pelas chamas do ponche”, uma esp?cie de quent?o.
Na verdade, informa Hearn, “as convic??es religiosas de Dickens n?o eram as mesmas da igreja constitu?da. Ele n?o aceitava seus dogmas e demonstrava pouco interesse por milagres.” Cristmas Carol, por isso, n?o ? uma obra de car?ter religioso, como talvez fosse de esperar-se. ? um livro sobre como a magia do Natal pode suscitar dramaticamente num homem rabugento, solit?rio, ego?sta, interessado apenas nos seus neg?cios como Mr. Scrooge, uma natureza quase angelical.
Nada de cerim?nias religiosas, leituras edificantes e serm?es alusivos ? data. Nada de teologia, afinal de contas. Paradoxalmente, em Dickens, que n?o era chegado ? cren?a em fantasmas, s?o os fantasmas (esp?ritos) que operam em Mr. Scrooge o milagre da renova??o ?ntima.
O recado que o escritor colocou em Christmas Carol ? o da solidariedade humana, do comportamento crist?o, n?o a religi?o especificamente. O que ele enfatiza, diz Hearn (p. 45) “s?o as boas obras do Cristo”.
Houve um tempo, informa Hearn, em que teve suas simpatias pela Igreja Unit?ria, que pregava a cren?a na supremacia de Deus-Pai, na natureza humana e na miss?o divina do Cristo, mas Dickens n?o fazia segredo de seu anticlericalismo. Mesmo em O Mist?rio de Edwin Drood, para o qual ele cria o correto Mr. Crisparkle, o c?nego menor, a figura do de?o de Cloisterham testemunha a antipatia do autor pelo sacerd?cio em geral.
Definitivamente n?o era o modelo vigente que ele pretendia para as religi?es, em geral, e para a crist?, em particular. Em A Vida de Nosso Senhor (1849), dirigido primordialmente aos seus pr?prios filhos, Dickens fala do Cristo com respeito e admira??o, destacando-lhe a bondade, a retid?o, a generosidade, o genu?no interesse pelos sofredores e miser?veis, identificados hoje como exclu?dos.
? evidente que o grande romancista sonhava com uma sociedade mais justa, talvez n?o de todo livre da pobreza, mas certamente moralizada e sem as agruras da mis?ria social. Ele conheceu de perto, na inf?ncia, o lado triste e sem horizontes da vida. Achava, contudo, que de nada adiantaria mudar as estruturas pol?ticas e o modelo s?cio-econ?mico – era preciso mudar as pessoas.
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Ao escrever estas notas, quase cento e trinta anos se passaram desde que Charles Dickens morreu, em 1870. Dizer que O Mist?rio de Edwin Drood seja o mais discutido e esmiu?ado livro depois da B?blia talvez seja um imperdo?vel exagero, mas os entendidos ainda est?o nos devendo, a n?s, figuras an?nimas da massa leitora, um estudo criterioso, competente, meticuloso e imparcial no qual o texto atribu?do ? personalidade sobrevivente de Charles Dickens seja tratado com seriedade e isen??o. J? n?o digo por quem pretenda demonstrar que ele constitui prova provada da continuidade da vida na dimens?o p?stuma nem para tentar demolir tal id?ia. Precisa-se ? de algu?m que fa?a trabalho semelhante ao que realizou Osmar Ramos Filho com o livro Cristo espera por ti, atribu?do ao esp?rito de Honor? de Balzac.
Osmar n?o se empenha em provar coisa alguma, nem mesmo que o livro medi?nico seja ou n?o de autoria de Balzac. Ou que a vida continue do lado de l?. Durante sete anos, ele se debru?ou sobre toda a obra do criador da Com?dia Humana – eu disse toda – confrontando-a quase que palavra por palavra, com o texto que se tem como medi?nico. Para ficar com as ra?zes culturais no campo da imparcialidade, partiu do pressuposto de estar trabalhando em cima de um pasticho, a fim de que o problema da psicografia medi?nica n?o fosse, talvez desnecessariamente, trazido para o ?mbito de seu estudo, o que poderia assombrar-lhe o texto, na vis?o de alguns. Se ? medi?nico, ou seja, se foi mesmo Balzac-esp?rito quem o escreveu atrav?s do dr. Waldo Vieira, tanto melhor, mas n?o ? isso que est? em discuss?o no seu estudo, e sim se h? no livro p?stumo de Balzac algum ind?cio a justificar ou, pelo menos, a colocar como probabilidade a autoria que lhe ? atribu?da.
O estudo de Osmar ?, portanto, um competente documento de an?lise liter?ria e n?o uma tese acerca da sobreviv?ncia do ser. As infer?ncias neste ?ltimo sentido ficam por conta do leitor e da leitora. E ? nesta condi??o – de mero leitor – que o livro subscrito por Balzac morto me confirma uma realidade que para mim, pessoalmente, ultrapassou as fronteiras da cren?a para situar-se no territ?rio da convic??o.
Seja como for, O Mist?rio de Edwin Drood precisa de tal abordagem e merece tratamento mais inteligente e respeitoso, dado que o texto medi?nico tem sido sistematicamente ignorado, ironizado e at? ridicularizado, como algo indigno da aten??o de qualquer estudioso que se preze. O que, definitivamente, n?o ?.
Bibliografia
DICKENS, Charles. The Mystery of Edwin Drood. Brattleboro, Vermont. Edi??o particular por T. P. James, 1873.
–––––––––––-. O mist?rio de Edwin Drood. Tradu??o portuguesa de M?rio Domingues, autor da segunda parte do livro. Editora Romano Torres, 1958, Lisboa, Portugal.
–––––––––––-. Christmas Carol. Reprodu??o em fac-simile da primeira edi??o. Introdu??o e notas de Michael Patrick Hearn, Avon Books, 1976, Nova York.
––––––––––––. The Mystery of Edwin Drood. Arthur J. Cox, editor, with an introduction by Angus Wilson. Penguin Books, 1985, Londres.
––––––––––––. The Mystery of Edwin Drood. Steven Connor, editor. J.M. Dent, Londres & Charles E. Tuttle, 1996. Vermont, USA.
DOYLE, Arthur Conan. The edge of the Unknown. John Murray, 1930, Londres.
FODOR, Nandor. An Encyclopaedia of Psychic Science. Citadel Press, Secaucus, New Jersey.
FRUTTERO, Carlo e LUCENTINI, Franco. The D. Case or The truth about the Mystery of Edwin Drood. Tradu??o do italiano por Gregory Dowling. Harcourt Brace, 1992, Orlando, Fl?rida, Estados Unidos.
RAMOS FILHO, Osmar. O avesso de um Balzac contempor?neo – arqueologia de um pasticho. Publica??es Lach?tre Editora, 1995, Niter?i, RJ.
RODRIGUES, Wallace Leal V. “Charles Dickens em face do Espiritismo”, in Tr?s esp?ritos do Natal. Tradu??o de Wallace Leal Rodrigues, Casa Editora O Clarim, 1988, Mat?o. SP.