Obra-prima de Charles Dickens ? conclu?da atrav?s da mediunidade
O Mist?rio de Edwin Drood ? uma obra peculiar. Interrompida a sua conclus?o por ocasi?o da morte do seu autor, o ingl?s Charles Dickens, foi conclu?da dois anos depois atrav?s da mediunidade de um simples mec?nico norte-americano, Thomas P. James. A repercuss?o desse fato foi intensa. A seguir, leia o relato de ?poca, narrado por importantes estudiosos dos fen?menos esp?ritas: Ernesto Bozzano, Gabriel Delanne e Alexander Akzakof.
O final do romance intitulado
The Mystery of Edwin Drood
Gabriel Delanne
Em 1872, nos Estados Unidos, expandiu-se o boato de que um jovem de pouca instru??o, mec?nico de profiss?o, chamado James, devia terminar medianimicamente um romance intitulado The Mystery of Edwin Drood, que a morte de Dickens havia deixado inacabado. Imediatamente o Springfield Daily Union enviou um de seus redatores a Brattleborough (Vermont), onde o m?dium morava, a fim de se informar no pr?prio local de todos os detalhes desse estranho empreendimento liter?rio. O relato do rep?rter apareceu em 26 de julho de 1873. Ele foi reproduzido pelo Banner of Light e pelo Spiritualist de 1873, p?gina 322. Eis a seguir alguns detalhes acerca do m?dium e do texto escrito mecanicamente:
O m?dium nasceu em Boston; aos quatorze anos de idade era aprendiz de mec?nico, ocupa??o que pratica ainda hoje, de forma que sua instru??o escolar terminou aos treze anos. Embora n?o carecesse de intelig?ncia, e nem fosse analfabeto, ele n?o manifestava nenhum gosto pela literatura e nunca se interessou por ela. Tal ? o homem que tomou na m?o a pena de Dickens e que terminou sua obra.
A mediunidade de James desenvolveu-se fazendo espiritismo com amigos. Ele era bastante incr?dulo, quando certo dia, assistindo ?s experi?ncias, caiu em transe, pegou um l?pis e escreveu uma comunica??o assinada com o nome do filho de uma pessoa presente, de cuja exist?ncia ele n?o sabia. Por volta do final do m?s de outubro de 1872, Charles Dickens disse-lhe em uma mensagem que o havia escolhido para terminar sua obra.
Essa comunica??o mostrava que Dickens havia por muito tempo procurado o meio de alcan?ar tal objetivo, mas que at? aquele dia n?o havia encontrado m?dium apto para cumprir semelhante tarefa. Ele desejava que o primeiro ditado fosse feito na v?spera do Natal, noite da qual gostava particularmente, e pedia ao m?dium que consagrasse a essa obra todo o tempo de que pudesse dispor sem prejudicar suas ocupa??es habituais. Imediatamente tornou-se evidente que era a m?o do mestre que escrevia, e James aceitou com mais boa vontade essa estranha situa??o. Esses trabalhos executados pelo m?dium fora de suas ocupa??es profissionais, que lhe tomavam dez horas por dia, produziram, at? julho de 1873, mil e duzentas folhas de manuscrito, o que representa um volume in-oitavo de quatrocentas p?ginas.
Qual ? o valor liter?rio da obra assim composta? Encontram-se nessa continua??o as qualidades especiais do grande romancista ingl?s? Eis a cr?tica feita pelo correspondente do Springfield Daily Union desse final de romance singularmente obtido:
Encontramo-nos aqui na presen?a de todo um grupo de personagens, onde cada um tem seus tra?os caracter?sticos, e os pap?is desses personagens devem ser mantidos at? o fim, o que constitui um trabalho consider?vel para quem, na vida, n?o escreveu sequer tr?s p?ginas sobre qualquer assunto; assim, nos surpreendemos ao constatar, desde o primeiro cap?tulo, uma completa semelhan?a com a parte editada do romance. O relato foi retomado no ponto preciso onde a morte do autor o havia deixado interrompido, e isto com uma concord?ncia t?o perfeita que o cr?tico mais experiente, que n?o soubesse onde havia sido a interrup??o, n?o poderia dizer em que ponto Dickens parou de escrever o romance com sua pr?pria m?o. Cada um dos personagens do livro continua a ser t?o vivo quanto t?pico, t?o bem mantidos na segunda parte quanto na primeira. Isso n?o ? tudo: apresentam-se novos personagens (Dickens tinha o costume de introduzir novos atores at? nas ?ltimas cenas de suas obras) que n?o s?o absolutamente substitutos dos her?is da primeira parte; n?o s?o manequins, mas caracteres tomados ao vivo, de verdadeiras cria??es. Criadas por quem?
At? aqui ainda se pode ver nas observa??es precedentes apenas uma aprecia??o liter?ria mais ou menos v?lida, uma vez que ela depende da cultura intelectual do cr?tico e pode ser influenciada pelo entusiasmo. Mas o exame do manuscrito guarda provas objetivas de que o inspirador da obra ? realmente o pr?prio Dickens. Citemo-las:
Eis alguns detalhes de incontest?vel interesse. Examinando o manuscrito observei que a palavra traveller (viajante) era sempre grafada com dois ‘1’, como ? costume na Inglaterra, enquanto que em nosso pa?s, na Am?rica, usa-se geralmente um s? ‘1’.
A palavra coal (carv?o) era sempre escrita coals, com um s, assim como se faz na Inglaterra. ? interessante tamb?m observar no emprego das mai?sculas as mesmas particularidades que se podem observar nos manuscritos de Dickens; por exemplo quando ele designa o sr. Grewgious como sendo um angular man (homem anguloso). Not?vel tamb?m o conhecimento topogr?fico de Londres, do qual o autor misterioso d? provas em v?rias passagens do livro. H? tamb?m muitos estilos de linguagem utilizados na Inglaterra, mas desconhecidos na Am?rica. Mencionarei tamb?m a mudan?a s?bita do tempo passado ao tempo presente, sobretudo num relato animado, transi??o muito freq?ente em Dickens, sobretudo em suas ?ltimas obras. Essas particularidades, e ainda outras que poderiam ser citadas, s?o de pouca import?ncia, mas foi com semelhantes bagatelas que se p?de fazer malograr qualquer tentativa de fraude.
Que probabilidade h?, nesse caso, para que se suponha uma trapa?a? Foi o que se perguntou igualmente o rep?rter, e eis como ele respondeu a tal pergunta:
Cheguei a Brattleborough com a convic??o de que essa obra p?stuma era apenas uma bolha de sab?o f?cil de furar. Ap?s dois dias de exame atento parti, e, devo confessar, estava indeciso. Eu primeiramente negava como coisa imposs?vel – como qualquer um o faria ap?s exame – que aquele manuscrito tivesse sido escrito pela m?o do jovem m?dium; ele me disse jamais ter lido o primeiro volume, detalhe insignificante, a meu ver, pois estou perfeitamente convencido de que ele n?o era capaz de escrever uma s? p?gina do segundo volume. Isto n?o ? para ofender o m?dium, uma vez que n?o h? muitas pessoas capazes de retomar uma obra inacabada de Dickens.
Conclus?o:
Vejo-me conseq?entemente com a seguinte alternativa: ou qualquer homem de talento utilizou o sr. James como instrumento para apresentar ao p?blico uma obra extraordin?ria de maneira igualmente extraordin?ria, ou ent?o o livro, assim como pretende seu autor invis?vel, foi efetivamente escrito atrav?s de ditado do pr?prio Dickens. A segunda suposi??o n?o ? mais maravilhosa do que a primeira. Se existe em Vermont um homem, desconhecido at? o momento, capaz de escrever como o pr?prio Dickens “que fala, embora morto”, para que surpresas n?o devemos nos preparar!
Afirmo com toda a minha honestidade que, tendo tido toda a liberdade de examinar livremente todas as coisas, n?o pude encontrar o m?nimo vest?gio de fraude, e, se eu tivesse o direito de publicar o nome do m?dium autor, isto seria suficiente para dissipar todas as suspeitas aos olhos das pessoas que o conhecem, por pouco que seja.
? certo que se os fatos precedentes foram relatados com exatid?o, esse caso n?o pode ser compreendido por nenhuma das hip?teses favoritas dos incr?dulos. Nem a subconsci?ncia, nem a mem?ria criptomn?sica, nem a clarivid?ncia s?o capazes de dar ao jovem mec?nico o estilo de Dickens e tampouco seus conhecimentos e sua ortografia, e, at? que se prove o contr?rio, parece-nos razo?vel atribuir ao esp?rito de Dickens o final de seu volume sobre O Mist?rio de Edwin Drood.
(Extra?do da obra Pesquisas sobre a mediunidade,
a ser publicada brevemente pela Lach?tre.)
Sobre O Mist?rio de Edwin Drood
Ernesto Bozzano
Nada querendo omitir na enumera??o dos casos especiais de que me ocupo neste estudo, devo ainda tocar no t?o conhecido epis?dio relativo ao romance de Charles Dickens: Edwin Drood, que ficou inacabado por ocasi?o do falecimento deste e que o esp?rito do romancista teria, ele pr?prio, terminado post mortem, por interm?dio do m?dium T. P. James, jovem oper?rio mec?nico dos Estados Unidos da Am?rica, sem cultura liter?ria de esp?cie alguma.
O caso se deu em 1873 e parece incontestavelmente aut?ntico. As condi??es nas quais se desenrolou essa s?rie de sess?es s?o bem interessantes e muito conhecidas tamb?m, sobretudo devido ? obra de Aksakof, n?o havendo, portanto, necessidade de record?-las. A origem supranormal da obra medi?nica em quest?o foi, alternativamente, afirmada e contestada por numerosos comentadores que o fizeram, empregando, igualmente e com a mesma efic?cia, a an?lise comparada das duas partes – a aut?ntica e a p?stuma – do romance em quest?o. Os que s?o favor?veis ? solu??o puramente consciente do enigma tratam, sobretudo, de salientar e comentar os defeitos e as incoer?ncias de natureza geral. Assim, por exemplo, a sra. Fairbanks faz notar que se encontrou, nos pap?is p?stumos de Charles Dickens, uma cena que este autor escrevera, com anteced?ncia, para a segunda parte do seu romance; ora, esta cena foi ignorada no ditado medi?nico. A sra. Vessel nota, por sua vez, que, lendo essa segunda se??o p?stuma do romance em apre?o, encontrou, pela primeira vez, Dickens mon?tono e pesado. Ao contr?rio, os que sustentam a proveni?ncia, autenticamente esp?rita do ditado medi?nico, n?o deixam de ter bons argumentos para fazerem valer. Eles fazem notar que a narra??o ? retomada no ponto exato em que Dickens a interrompera, ao morrer.
Isto se d? com tal naturalidade que a cr?tica mais sagaz n?o seria capaz de assinalar o ponto em quest?o.
Fazem da mesma maneira sobressair detalhes de forma, de estilo, de constru??o, de ortografia, realmente eloq?entes no sentido afirmativo. Assim, por exemplo, a palavra traveller (viajante) est? constantemente escrita com ‘l’ duplo, como se escreve na Inglaterra, enquanto nos Estados Unidos da Am?rica se escreve com um ‘l’ s?. A palavra coal (carv?o) est? invariavelmente escrita com um ‘s’ final, ? maneira dos ingleses e n?o segundo o uso dos americanos. Finalmente, passa-se, no ditado medi?nico, do tempo passado ao presente, sobretudo nas cenas movimentadas, h?bito caracter?stico de Dickens, o que n?o se d? com os outros romancistas.
Sir Conan Doyle, analisando, por sua vez, esse caso, em um artigo publicado na Fortnightly Review (dezembro de 1927), salienta outras analogias do mesmo g?nero, come?ando pelos t?tulos dos cap?tulos, que guardam, constantemente, na obra medi?nica, a impress?o original dos t?tulos caros a Dickens. Ele cita, al?m disto, duas passagens descritivas, extra?das do ditado medi?nico, as quais p?e em confronto com duas passagens do mesmo g?nero, tiradas da parte aut?ntica do romance, sem indicar os textos a que pertenciam os diferentes trechos e convida os cr?ticos a distinguir as aut?nticas das medi?nicas. Sir Arthur declara que a coisa n?o est? longe de ser f?cil, dada a identidade do estilo e da forma, assim como sua beleza liter?ria, sinal do mesmo temperamento art?stico.
Apesar disto, sir Arthur tamb?m reconhece que o verdadeiro Dickens teria provavelmente feito agir, de modo diferente, certos personagens do romance, por?m observa:
Parece-me, entretanto, que n?o se deveria insistir muito sobre este ponto, sem pretender que um Dickens, entorpecido por sua uni?o com o m?dium James, deva ficar, mentalmente, t?o ?gil como um Dickens, senhor absoluto de si pr?prio. ? preciso, logicamente, admitir qualquer coisa a este respeito.
Noto, por minha vez, que esta ?ltima considera??o est? conforme ao que j? fiz observar a prop?sito dos ditados medi?nicos de Francesco Scaramuzza.
N?o obstante isto, Conan Doyle conclui dizendo que, no romance p?stumo em quest?o, “est?-se bem longe ainda de ficar-se autorizado a afirmar a exist?ncia de uma inspira??o real da parte do grande romancista”.
? neste sentido que concluiremos tamb?m, isto ?, que, se os processos da an?lise comparada, ainda esta vez, s?o, em seu conjunto, mais favor?veis ? hip?tese medi?nica do que ? contr?ria, esta circunst?ncia n?o autoriza, entretanto, a forma??o de ju?zos precisos a tal respeito. Deve-se, mais, reconhecer que o caso Dickens ainda n?o pode ser registrado entre os que servem para fazer pender a balan?a das probabilidades, a favor da interpreta??o esp?rita dos fatos.
(Extra?do da obra Literatura de Al?m-t?mulo.
Tradu??o de Francisco Kl?rs Werneck.)
Conclus?o do romance de Dickens por interven??o medi?nica
Alexandre Aksakof
Gostaria de apresentar um exemplo de produ??o medi?nica cujo car?ter individual impede a possibilidade de explica??o pela clarivid?ncia: quero falar do romance de Charles Dickens: Edwin Drood, deixado por terminar pelo ilustre autor e completado pelo m?dium James, um jovem sem instru??o. Diversas testemunhas presenciaram o modo de produ??o da obra, e ju?zes competentes apreciaram-lhe o valor liter?rio.
Quando se espalhou o boato de que o romance de Dickens ia ser terminado por t?o extraordin?rio e ins?lito processo, o Springfield Daily Union expediu um de seus colaboradores a Brattleborough (Vermont), onde habitava o m?dium, para fazer uma investiga??o, no local, de todos os pormenores desse estranho empreendimento liter?rio. Eis alguns trechos do relat?rio em oito colunas publicado por esse jornal, a 26 de julho de 1873, reproduzido a princ?pio pelo Banner of Light e depois parcialmente pelo The Spiritualist de 1873, p?gina 322, do qual os tiramos:
Ele (o m?dium) nasceu em Boston; aos quatorze anos, foi colocado como aprendiz em casa de um mec?nico, of?cio que at? hoje exerce; de maneira que sua instru??o escolar terminou na idade de treze anos. Se bem que n?o fosse nem destitu?do de intelig?ncia, nem iletrado, n?o manifestava gosto algum pela literatura e nunca se tinha interessado por ela.
At? ent?o, nunca tinha experimentado publicar, em qualquer jornal, o menor artigo. Tal ? o homem de cuja pena Charles Dickens lan?ou m?o para continuar The Mistery of Edwin Drood e que chegou quase a terminar essa obra.
Fui bastante feliz por ser a primeira pessoa a quem ele pr?prio participou todos os pormenores, a primeira que examinou o manuscrito e fez extratos.
Eis como se passaram as coisas. Havia dez meses, um jovem, o m?dium que, para ser breve, designarei pela inicial A (pois que ele n?o quis ainda divulgar seu nome), tinha sido convidado por seus amigos a sentar-se perto de uma mesa para fazer parte de uma experi?ncia esp?rita. At? aquele dia, sempre havia zombado dos ‘milagres esp?ritas’, considerando-os fraudes, sem suspeitar que ele pr?prio possu?a dons medi?nicos. Apenas come?ou a sess?o, ouviram-se pancadas r?pidas e a mesa, depois de movimentos bruscos e desordenados, cai sobre os joelhos do Sr. A. para fazer-lhe ver que ? ele o m?dium. No dia seguinte, ? noite, convidaram-no para tomar parte em uma segunda sess?o; as manifesta??es foram ainda mais acentuadas. O Sr. A. caiu subitamente em transe, tomou um l?pis e escreveu uma comunica??o assinada com o nome do filho de uma das pessoas presentes, de cuja exist?ncia o Sr. A. n?o suspeitava. Mas as particularidades dessas experi?ncias n?o s?o de interesse particular neste lugar...
Em fins do m?s de outubro de 1872, no decurso de uma sess?o, o Sr. A. escreveu uma comunica??o dirigida a si mesmo e assinada com o nome de Charles Dickens, com o pedido de organizar para ele uma sess?o especial, a 15 de novembro.
Entre outubro e o meado de Novembro novas comunica??es lembraram-lhe aquele pedido por muitas vezes. A sess?o de 15 de novembro, que, segundo as indica??es recebidas, se realizou ?s escuras, em presen?a do Sr. A. somente, deu em resultado uma longa comunica??o de Dickens, que externou o desejo de terminar, com o aux?lio do m?dium, seu romance n?o acabado.
Essa comunica??o informava que Dickens tinha procurado por longo tempo o meio de alcan?ar esse intento, mas que at? aquele dia n?o tinha encontrado m?dium apto para realizar semelhante incumb?ncia. Ele desejava que o primeiro ditado fosse feito na v?spera do natal, noite que prezava particularmente, e pedia encarecidamente ao m?dium que consagrasse ?quela obra todo o tempo de que pudesse dispor, sem prejudicar as suas ocupa??es habituais... Em breve tornou-se evidente que era a m?o do mestre que escrevia, e o Sr. A. aceitou com a melhor boa vontade essa estranha situa??o. Esses trabalhos, executados pelo m?dium, fora de suas ocupa??es profissionais, que lhe tomavam dez horas por dia, produziram, at? julho de 1873, duzentas folhas de manuscrito, o que representa um volume in-oitavo de quatrocentas p?ginas.
Fazendo a cr?tica dessa nova parte do romance, o correspondente do Sprigfield Daily Union exprime-se assim:
Achamo-nos aqui em presen?a de um grupo inteiro de personagens, cada uma das quais tem seus tra?os caracter?sticos, e os pap?is de todas essas personagens devem ser sustentados at? o fim, o que constitui um trabalho consider?vel para quem em sua vida n?o escreveu tr?s p?ginas sobre um assunto qualquer; pelo que ficamos surpresos em verificar desde o primeiro cap?tulo uma semelhan?a completa com a parte desse romance que estava publicada. A narra??o ? recome?ada no ponto preciso em que a morte do autor a tinha deixado interrompida, e isso com uma concord?ncia t?o perfeita que o mais consumado cr?tico, que n?o tivesse conhecimento do lugar da interrup??o, n?o poderia dizer em que momento Dickens deixou de escrever o romance por sua pr?pria m?o. Cada uma das personagens do livro continua a ser t?o viva, t?o t?pica, t?o bem caracterizada na segunda parte como na primeira. N?o ? tudo. Apresentam-se-nos novas personagens (Dickens tinha o h?bito de introduzir atores novos at? nas ?ltimas cenas de suas obras) que n?o s?o absolutamente reprodu??es dos her?is da primeira parte; n?o s?o bonecos, por?m caracteres tomados ao vivo, verdadeiras cria??es. Criadas por quem?... (p. 323).
O correspondente prossegue:
Eis uma multid?o de pormenores de incontest?vel interesse. Examinando o manuscrito, notei que a palavra traveller (viajante) era escrita sempre com dois ‘l’, como ? uso na Inglaterra, ao passo que entre n?s, na Am?rica, n?o se usa mais de um ‘l’, em geral.
A palavra coal (carv?o) ? escrita invariavelmente coals, com um ‘s’, como se usa na Inglaterra. ? interessante tamb?m notar, no emprego das min?sculas, as mesmas particularidades que se podem observar nos manuscritos de Dickens; por exemplo, quando ele designa o Sr. Grewgious, como an angular man (um homem anguloso). Tamb?m ? digno de nota o conhecimento topogr?fico de Londres, de que d? prova o autor misterioso em muitas passagens do livro. H? tamb?m muitos torneios de linguagem usados na Inglaterra, por?m desconhecidos na Am?rica. Mencionarei tamb?m a mudan?a s?bita do tempo passado em tempo presente, principalmente em uma narra??o animada, transi??o muito comum em Dickens, principalmente em suas ?ltimas obras. Esses detalhes, e outros ainda que poderiam ser enumerados, s?o de import?ncia menor, por?m ? com semelhantes bagatelas que se teria feito malograr qualquer tentativa de fraude.
E eis a conclus?o do artigo citado:
Cheguei a Brattleborough com a convic??o de que essa obra p?stuma n?o passaria de uma bolha de sab?o, f?cil de rebentar. Depois de dois dias de exame atento, parti de novo, e, devo confess?-lo, estava indeciso. Neguei em primeiro lugar como coisa imposs?vel – como qualquer um t?-lo-ia feito depois de um exame – que esse manuscrito tivesse sido escrito pela m?o do jovem m?dium Sr. A.; ele me disse que nunca tinha lido o primeiro volume; particularidade insignificante, a meu ver, pois que estou perfeitamente convencido de que ele n?o era capaz de escrever uma s? p?gina do segundo volume. Isso n?o ? para ofender o m?dium, pois que n?o h? muitas pessoas no caso de continuar uma obra n?o acabada de Dickens!
Vejo-me, por conseguinte, colocado nesta alternativa: ou um homem qualquer de g?nio se utilizou do Sr. A. como instrumento para apresentar ao p?blico uma obra extraordin?ria, de maneira igualmente extraordin?ria; ou antes esse livro, como o pretende seu autor invis?vel, foi escrito, efetivamente, sob o ditado de Dickens. A segundo suposi??o n?o ? mais maravilhosa que a primeira. Se existe em Vermont um homem, desconhecido at? o presente, capaz de escrever como Dickens, certamente ele n?o tem motivo algum para ter recorrido a semelhante subterf?gio. Se, por outro lado, ? o pr?prio Dickens quem fala, se bem que tenha ‘morrido’, para que surpresas n?o devemos nos preparar? Atesto, sob palavra de honra, que, tendo tido tempo suficiente de examinar com liberdade todas as coisas, n?o pude descobrir o m?nimo ind?cio de embuste, e, se eu tivesse a autoriza??o de publicar o nome do m?dium-autor, era o suficiente para dissipar todas as suspeitas aos olhos das pessoas que o conhecem, por pouco que seja. (p. 326).
Eis ainda algumas informa??es hauridas da mesma fonte:
De princ?pio, o m?dium escrevia apenas tr?s vezes por semana, e n?o mais de tr?s ou quatro p?ginas por sess?o; depois, por?m, as sess?es passaram a ser feitas a cada dois dias, e ele chegava a escrever dez ou doze p?ginas, ?s vezes mesmo vinte. N?o escrevia com a sua caligrafia normal, e, fazendo-se a compara??o, havia nela alguma semelhan?a com a caligrafia de Dickens. No in?cio de toda sess?o, a escrita era bonita, elegante, quase feminina, mas, na medida em que o trabalho avan?ava, a escrita tornava-se cada vez mais grossa, e, nas p?ginas finais, as letras eram cinco vezes maiores, pelo menos do que as do in?cio. Essas varia??es se reproduziram em todas as sess?es, permitindo assim classificar as quinhentas folhas do manuscrito. Algumas p?ginas come?am com sinais taquigr?ficos, dos quais o m?dium n?o tinha o m?nimo conhecimento. A escrita ? t?o veloz que, ?s vezes, demora-se a decifr?-la.
A maneira de proceder nas sess?es ? muito simples: preparam-se dois l?pis bem aparados e grande quantidade de papel cortado em tiras; o Sr. A. retira-se s? para seu aposento. A hora habitual era ?s seis horas da manh? ou ?s sete e meia da noite, horas em que ainda havia claridade durante aquela esta??o; entretanto, as sess?es da noite prolongavam-se freq?entemente al?m das oito horas e meia e mesmo mais tarde, e, ent?o, a escrita continuava, apesar da escurid?o, com a mesma nitidez. Durante o inverno, todas as sess?es se realizaram ?s escuras.
O secret?rio de Dickens coloca o papel e os l?pis ao seu alcance, p?e as m?os em cima da mesa, com a palma para baixo, e espera tranq?ilamente. Tranq?ilidade relativa, entretanto, pois que, n?o obstante os fen?menos terem perdido sua novidade, e ele j? se ter habituado a eles, o m?dium confessa n?o poder eximir-se a um sentimento de terror durante essas sess?es, no decurso das quais ele evoca, por assim dizer, um fantasma.
E ele espera assim – algumas vezes fumando seu cigarro – durante dois, tr?s, cinco minutos, ?s vezes dez, mesmo durante uma meia hora; mas, de ordin?rio, se as condi??es s?o favor?veis, n?o mais de dois minutos. As condi??es dependem principalmente do estado do tempo. Se o dia ? claro, sereno, ele trabalha sem interrup??o: tal seria uma m?quina el?trica que funcionasse melhor com um tempo favor?vel; um tempo tempestuoso produz perturba??o, e, quanto mais violenta ? a tempestade, tanto mais se acentua a perturba??o. Quando o tempo ? inteiramente mau, a sess?o fica adiada.
Depois de se ter conservado ? mesa durante o tempo preciso, segundo as circunst?ncias, o Sr. A. perde gradualmente os sentidos, e ? nesse estado que escreve durante cerca trinta minutos ou uma hora. Aconteceu-lhe certo dia escrever durante uma hora e meia. O fato ?nico de que o m?dium se recorda, passado o estado de transe, ? a vis?o de Dickens que volta de cada vez; o escritor – diz ele – est? sentado a seu lado, com a cabe?a apoiada nas m?os, imerso em profunda medita??o, com express?o s?ria, um pouco melanc?lica, no rosto; n?o diz uma palavra, mas lan?a ?s vezes sobre o m?dium um olhar penetrante e sugestivo. “Oh, que olhar!”.
Essas recorda??es ocorrem ao m?dium da mesma maneira que um sonho que se acaba de ter, como uma coisa real, mas ao mesmo tempo intang?vel. Para indicar que a sess?o est? terminada, Dickens pousa de cada vez sua m?o fria e pesada sobre a do m?dium.
Nas primeiras sess?es, esse contacto provocava da parte do Sr. A. exclama??es de terror, e, ainda nesse momento, ele n?o pode falar nisso sem estremecer; esse contato fazia-o sair de seu estado de transe, por?m, de ordin?rio lhe era preciso o aux?lio de uma terceira pessoa para levantar suas m?os da mesa, ? qual elas estavam por assim dizer aderentes por uma for?a magn?tica. Readquirindo os sentidos, ele v?, esparsas pelo soalho, as tiras escritas durante essa sess?o.
Essas tiras n?o s?o numeradas, de maneira que o Sr. A. ? obrigado a classific?-las segundo o texto. Durante algum tempo, depois dessas sess?es, o m?dium sentia uma dor muito intensa no peito, mas n?o era de longa dura??o, e s?o as ?nicas conseq??ncias desagrad?veis que ficavam das sess?es. O nervosismo extremo de que ele sofria, antes do desenvolvimento de suas faculdades medi?nicas, deixou-o completamente; jamais foi ele t?o robusto.
Podem-se ler outros pormenores na p?gina 375 do Spiritualist de 1873, e p?gina 26 de 1874, onde o Sr. Harrison, pessoa muito competente nessas mat?rias, assim se exprime:
? dif?cil admitir que o g?nio e o senso art?stico com que esse escrito est? marcado, e que t?m tanta semelhan?a com o g?nio e com o senso art?stico de Charles Dickens, tenham induzido o seu autor, qualquer que ele seja, a s? se apresentar ao mundo como h?bil falsificador.
(Extra?do da vers?o francesa da obra Animismo e espiritismo.
Tradu??o de Ricardo Machado.)