Depois do imenso ?xito de seus livros, O jardim dos girass?is e A luz que vem de dentro, Lygia Barbi?re Amaral lan?a mais um romance que promete ultrapassar o sucesso das obras anteriores. Seu t?tulo: O Sil?ncio dos Domingos.
– Sobre que assunto trata o seu novo romance?
– ? basicamente sobre a s?ndrome do p?nico, uma doen?a relativamente moderna, que atualmente atinge cerca de cinco por cento da popula??o mundial. Procurei mostrar o que ? a s?ndrome, como se manifesta, como fica a pessoa que sofre deste mal, quais as poss?veis explica??es para que se manifeste. ? uma doen?a estranha, que surge do nada e bagun?a completamente a vida do indiv?duo. Descobri, inclusive, que existe muita gente famosa que sofre desta doen?a. O livro aborda tamb?m a quest?o do aborto. N?o de uma maneira radical, condenando pura e simplesmente a m?e que faz o aborto. Com muito cuidado para n?o machucar estas pessoas, que geralmente sofrem muito antes, durante e depois do abortamento, eu tentei mostrar o que passa pela cabe?a de uma jovem que se descobre gr?vida de repente, seus medos, ansiedades e inquieta??es. Mas tamb?m tentei mostrar que isto n?o ? uma coisa legal, porque afinal existe ali um esp?rito, um compromisso, enfim toda uma estrutura ? montada na espiritualidade antes que um feto seja gerado. O romance enfoca ainda o que acontece com o ser abortado, que era uma curiosidade minha. Pesquisei muito sobre o assunto e quis dividir com o leitor o que descobri. Meu objetivo ? levar as pessoas a uma reflex?o, faz?-las entender que tudo na vida tem uma raz?o, uma li??o embutida. Nada nos acontece por acaso. Afinal de contas, Deus n?o erra...
– Como voc? elabora as tramas do livro? Voc? cria, simplesmente, ou retrata situa??es e pessoas que voc? conhece?
– Neste ponto sou meio Janete Clair, gosto daquele estilo novela-verdade, onde tudo acontece como na vida real. Tem uma frase do Affonso Romano de Sant’Anna, de que gosto muito, que diz que “a realidade ? apenas a parte mais vis?vel da fic??o”. Eu diria que a realidade ? o ponto de partida para a fic??o. Procuro me basear em coisas que acontecem, que mobilizam as pessoas e a partir da? tecer minha trama. No caso de O jardim dos girass?is, a inspira??o surgiu com o caso daquele avi?o da TAM que explodiu por causa de uma bomba. Me intrigou o fato do passageiro que morreu, sob cujo banco havia sido colocada a bomba. Segundo li nos jornais, ele parecia de alguma maneira intu?do de que iria morrer naquele dia. Fez quest?o at? de acertar sua conta na lanchonete do aeroporto. Juntou-se a este caso a viv?ncia do luto e da dor de tr?s mulheres muito pr?ximas a mim que ficaram vi?vas de repente. J? em A luz que vem de dentro, a hist?ria come?ou a germinar em mim quando uma pessoa conhecida contou-me que uma jovem m?e havia se suicidado, poucos dias depois de dar ? luz uma crian?a, desesperada porque n?o conseguia amament?-la. Aquilo mexeu comigo. Havia acabado de ter minha primeira filha, tamb?m havia experimentado grandes dificuldades para amament?-la, mas da? a pensar em suic?dio?! Fiquei pensando o que havia passado pela cabe?a daquela m?e. E como se sentiria ao acordar e perceber a bobagem que havia feito. E, afinal, o que acontece com os suicidas? Eu sabia ent?o muito pouco sobre o assunto e fui estudar. E assim surgiu o romance. No caso de O sil?ncio dos domingos, a id?ia surgiu durante uma entrevista que eu estava dando na R?dio Imprensa, quando um dos rapazes que cuidava do som me perguntou: por que voc? n?o escreve um romance sobre a s?ndrome do p?nico? Aquilo ficou arquivado. Achei interessante na hora, mas n?o calculava ainda a verdadeira dimens?o da coisa. S? muito tempo depois, quando comecei a pesquisar sobre o assunto, percebi o quanto era importante, quantas pessoas estavam passando por aquela situa??o. Pensei: “Caramba! ? este o tema que preciso trabalhar neste momento!” Quando escrevo, tenho sempre a preocupa??o de ajudar as pessoas, de enxugar l?grimas, de trabalhar temas que sejam ?teis na constru??o de seres melhores, de uma sociedade melhor.
– Al?m da s?ndrome do p?nico, o livro tamb?m fala sobre outro tema complexo, o mal de Alzheimer. Como voc? faz para se informar sobre esses assuntos?
– Eu estudo muito, muito mesmo sobre cada assunto. Para voc? ter uma id?ia, li cerca de cinq?enta livros para poder escrever O Sil?ncio dos Domingos. Fora as ‘trocentas’ reportagens, as entrevistas... Penso que ? uma responsabilidade muito grande falar sobre alguma coisa que represente um problema na vida dos meus leitores ou de algu?m pr?ximo a eles. N?o posso me permitir furos. Muitas vezes as pr?prias pessoas que est?o passando pelo problema precisam, acima de tudo, entender o que est? acontecendo com elas.
– ? l?gico que a gente n?o quer que voc? conte o fim da hist?ria, mas poderia dizer qual a mensagem principal da obra?
– Acho que ? a quest?o da mudan?a. Todos n?s somos seres em cont?nuo processo de aprimoramento, que j? vivemos muitas, in?meras experi?ncias. Sempre que um problema, uma situa??o dif?cil ou at? mesmo uma pessoa dif?cil aparece em nosso caminho, n?o devemos nos desarvorar. Quase sempre, aquele problema ? um sinal de que algo precisa ser mudado. N?o nos outros, porque n?o temos poder para mudar as outras pessoas, mas em n?s mesmos. Estamos sempre colhendo o resultado daquilo que um dia plantamos.
– Conte-nos como funciona cabe?a de escritor. Agora que o livro est? sendo lan?ado, j? est? pensando no pr?ximo?
– Pensando estou. Porque a cabe?a n?o p?ra. Diria que j? tenho v?rias pontas soltas de trama, quero escrever um romance policial, onde h? um serial-killer e a mediunidade ? um dos ganchos importantes para desvendar o mist?rio. Mas ? preciso um tempo para que as id?ias germinem, para que surjam as tramas e as personagens se entrelacem. A sensa??o de escrever um livro ? igualzinha ? de uma gesta??o (eu, ali?s, sempre demoro exatos nove meses escrevendo). A gente chora na hora do parto, demora um tempinho embalando a crian?a at? que ela se adapte melhor ?s leis do mundo e possa ir no colo das outras pessoas. Revisa um pedacinho aqui, aperta um parafuso acol?, discute a capa, o texto da quarta-capa... S? depois que o livro entra na gr?fica para ser impresso come?o a juntar meus peda?os, a ser apenas eu de novo, sem me preocupar mais tanto com o destino das personagens. Mas ? tamb?m um pouco doloroso v?-las de alguma forma partindo de mim, tomando seus pr?prios rumos longe da minha prote??o. ?s vezes tenho vontade de escrever para saber como est?o passando, o que aconteceu em suas vidas depois que deixamos de nos ver... Parece at? coisa de gente louca, mas ? assim que eu sinto. Por isso ? necess?rio um tempo de resguardo, de refazimento, antes de me deixar fecundar por uma outra hist?ria. Escrever, para mim, ? acima de tudo um ato de amor, de doa??o, de entrega total.
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